#Uncategorized

Ruas e redes se tornam eixo da campanha de Lula e forçam Flávio Bolsonaro a reagir

ruas-e-redes-se-tornam-eixo-da-campanha-de-lula-e-forcam-flavio-bolsonaro-a-reagir

O resultado do primeiro turno obrigou as duas campanhas que disputam a Presidência a mudarem o ritmo. Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou a primeira etapa da eleição à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos. Cinco dias depois, Lula retomou as agendas de rua e deu início a uma nova estratégia de campanha, com foco nas redes sociais, território onde seu adversário, até então, nadava de braçada, e na redução das abstenções.

A aposta combinou maior presença nos atos com uma ofensiva digital maciça, colocando estudantes, movimentos sociais, jovens políticos, produtores de conteúdo  e influencers no centro da mobilização. A primeira grande demonstração dessa mudança ocorreu em São Paulo.  No domingo, 11 de outubro, Lula surpreendeu até aliados ao participar de uma manifestação na Avenida Paulista que não constava inicialmente na agenda do petista. 

O ato ocupou 12 quarteirões da avenida, em grande parte de seus 2,8 quilômetros, e foi apontado como a maior mobilização da esquerda no local desde os protestos contra o então governo Jair Bolsonaro (PL). Não faltaram comparações com o histórico ato das Diretas Já realizado em 1985, no Vale do Anhangabaú, centro da capital paulista.

Contra-ataque do rival

A reação de Flávio Bolsonaro veio rapidamente. A mobilização digital pró-Lula acendeu o alerta na campanha do PL, que passou a monitorar a movimentação do canal “Exército do Lula”, idealizado no WhatsApp pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), e criou a própria comunidade virtual na plataforma, chamada “Tropa do Flávio”. O candidato acusou a campanha adversária de usar montagens e informações falsas, enquanto aliados passaram a cobrar uma resposta mais organizada do bolsonarismo nas redes. 

Mas a reação não ficou no ambiente digital. Flávio voltou ao Sudeste para mobilizar prefeitos, deputados e aliados. No Rio de Janeiro, participou de encontros políticos e programou carreata em São Gonçalo. Em São Paulo, buscou a articulação do governador reeleito Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e pediu aos aliados que mantivessem em alta rotatividade as redes, os atos de rua e as estruturas físicas dos comitês. 

A campanha também ampliou sua rede partidária. Flávio recebeu apoio formal de União Brasil, PP, Republicanos, Podemos, Novo e MDB, além de manifestações de apoio de candidatos derrotados como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). No Nordeste, onde Lula mantém vantagem, a estratégia é tentar ampliar a diferença em relação ao primeiro turno. A previsão é de uma visita de Flávio a Salvador em 17 de outubro. 

Primeiros resultados

Em uma semana, o engajamento da campanha de Lula no Instagram quadruplicou. O petista chegou a ganhar duas vezes mais seguidores do que o adversário no mesmo período. Os números ajudam a dimensionar a mudança de cenário: a disputa passou também a ser travada por meio da capacidade de mobilizar pessoas nas ruas e fazer conteúdos circularem bastante nas redes. 

Atos espalhados por todo o país

A multidão que tomou a Avenida Paulista foi apenas a vitrine de uma mobilização que se espalhou pelo país. Atos, caminhadas, carreatas, bandeiraços e panfletagens em defesa de Lula foram registrados em 76 cidades. Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte, Manaus, Goiânia, Vitória, Aracaju e Florianópolis estiveram entre os locais com manifestações organizadas, sobretudo, por estudantes, .

Na capital baiana, a mobilização também ganhou força entre o público jovem. Antes de São Paulo, aianda na noite de 7 de outubro, alunos da Ufba saíram da Faculdade de Educação, no Canela, e seguiram pela região da Graça até o Largo da Vitória. Os manifestantes entoaram palavras de ordem contra a extrema-direita e cantaram “Bota Pra Virar”, hit do pagodeiro Igor Kannário. 

Outros atos no domingo passaram por pontos como Piatã, Campo Grande e Barra, transformando parte do circuito oficial do Carnaval de Salvador em uma espécie de tapete pró-Lula na campanha. Desde então, Salvador é palco de manifestações quase diárias em favor da reeleição do presidente. 

Juventude ocupa posição central

O eleitorado com menos de 25 anos passou a ocupar um espaço central nessa nova fase da campanha. Depois do primeiro turno, a campanha de Lula reuniu jovens deputados eleitos, entre eles Ana Elisa, do PT de Minas Gerais; Guilherme Cortez, do Psol de São Paulo; Jones Manoel, do Psol de Pernambuco; Luna Zarattini, do PT paulista; e Renato Freitas, do PT do Paraná. Todos feras em matéria de redes sociais 

A onda de manifestações, no entanto, também foi acompanhada por episódios de tensão. Estudantes de Ouro Preto relataram ameaças de morte, enquanto a Universidade Federal Fluminense acionou a PF após receber ameaças contra estudantes e instalações. Na Universidade Federal de Sergipe, uma manifestação foi interrompida após relatos de disparos feitos por um homem armado. 

A ofensiva não ficou restrita às ruas. Ao mesmo tempo em que ampliou a presença nos atos, a campanha de Lula passou a investir em uma comunicação mais direta nas redes sociais, com vídeos curtos, conteúdos produzidos por jovens parlamentares, influenciadores e grupos de apoiadores.

É nesse ponto que a estratégia de Flávio começou a reagir. A mobilização em torno de Lula levou aliados do candidato do PL a ampliarem a atuação nas redes e a organizarem uma resposta também nas ruas. 

Batalha travada pelo celular é intensificada

A ofensiva petista fora das ruas ganhou tração em vários formatos e linguagens. Depois de reconhecer problemas na organização da campanha do primeiro turno, Lula passou a adotar uma comunicação mais informal. Aos 80 anos, apareceu em vídeos gravados em formato de selfie, linguagem pouco habitual em sua comunicação tradicional. A mudança chegou também à propaganda de televisão. 

Eleita deputada pelo PT aos 21 anos, Ana Elisa tornou-se uma das referências dessa transformação. Ela foi chamada a Brasília após o primeiro turno para participar das discussões sobre a nova estratégia, que passou a privilegiar vídeos rápidos, mensagens curtas e conteúdos com potencial de viralização – justamente uma área na qual a extrema-direita construiu vantagem ao longo dos últimos anos. 

É nesse cenário que André Janones ganhou espaço. O deputado mineiro passou a comandar o chamado “Exército do Lula”, grupo criado no WhatsApp para organizar voluntários e distribuir vídeos, memes, fotos e outros conteúdos de campanha. O canal cresceu rapidamente e virou um dos principais símbolos da nova tentativa de profissionalizar a militância digital. O número atual de integrantes, até o fechamento desta edição, estava em torno de 4,3 milhões de seguidores.

Alerta amarelo

O crescimento vertiginoso do canal levou a um contra-ataque jurídico do adversário. Após pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do Exército do Lula, sob a alegação de disseminação de conteúdos considerados inverídicos. 

Horas depois, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, derrubou a medida por considerar insuficientes os elementos apresentados. O canal voltou a ser suspenso posteriormente, até que a campanha de Lula providenciou seu registro formal na Justiça Eleitoral, conforme exigido por Nunes Marques.  

A estratégia também ultrapassou a estrutura formal da campanha. Influenciadores passaram a produzir conteúdos para convencer eleitores e estimular a participação no segundo turno. Fã-clubes de artistas como Anitta e Luiza Sonza e de grupos como BTS aderiram ao movimento “Fandoms com Lula”. Uma comunidade de profissionais de tecnologia também criou o “Radar da Virada”, ferramenta para acompanhar tendências e menções a Lula e Flávio Bolsonaro. 

Foco em romper a bolha 

A tentativa do PT é romper a bolha da esquerda. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) recebeu a missão de circular pelo país para conversar com eleitores que rejeitam Lula, mas também não querem votar em Flávio. Nesta quinta-feira (15), ele desembarca em Salvador como parte do giro pelo Brasil.  A campanha também pretende investir em podcasts, entrevistas e conversas com intelectuais e blogueiros para alcançar eleitores mais jovens, os desiludidos com a política e a fatia da direita tradicional que não flerta com o bolsonarismo.

Outro movimento tenta ampliar o arco político de apoio a Lula. Uma carta em defesa da democracia foi articulada pelo ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, e pelo procurador Roberto Livianu, ambos declaradamente de direita. A presença de nomes de fora da esquerda tradicional é parte da tentativa de apresentar a disputa como algo que ultrapassa a polarização entre os dois campos e diz respeito à proteção do Estado Democrárico de Direito. 

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Share with