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Em nova crônica, MK lembra o tempo em que o transporte público em Salvador era movido a ônibus elétricos

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Salvador tem uma capacidade extraordinária de inventar o futuro, jogar a invenção no lixo e, algumas décadas depois, anunciar com entusiasmo que acaba de descobrir a modernidade. É uma especialidade nossa. Quase uma tradição.

Pouca gente sabe, especialmente os mais jovens, que Salvador já teve ônibus elétricos há quase 70 anos. E não eram experiências improvisadas, dessas que aparecem em solenidades, rendem fotografias e desaparecem no dia seguinte.

A história começa na administração de Hélio Machado, prefeito eleito em 1954, que governou a cidade de 1955 a 1959. Naquela época, Salvador ainda tinha bondes, ruas de paralelepípedos e uma população que nem imaginava os engarrafamentos que o futuro lhe reservaria.

Hélio resolveu modernizar o transporte coletivo. Comprou nada menos que 50 ônibus elétricos, importados da Itália, com componentes de fabricantes como Fiat, Alfa Romeo e Marelli. Vieram também equipamentos para alimentar os veículos e uma rede de fios que seria instalada sobre as ruas.

Eram os chamados trólebus. Não precisavam de gasolina nem de óleo diesel. Recebiam energia elétrica por duas hastes ligadas à rede aérea. Silenciosos, não soltavam fumaça e representavam uma alternativa moderna aos velhos bondes.

Em 1958, começaram a circular na Cidade Baixa, inicialmente ligando o Comércio à Madragoa, na região da Ribeira.
Imaginem a cena. Salvador, ainda provinciana, com seus casarões, ladeiras e o movimento do porto, recebendo ônibus elétricos italianos. Uma novidade que devia impressionar muita gente.

Mas aí começou a parte da história que conhecemos tão bem.

Segundo relatos da época, embora tivessem sido comprados 50 veículos, o sistema elétrico só comportava 25 funcionando simultaneamente. Metade da frota ficava esperando a vez. Quando um quebrava, entrava outro.

Com o passar dos anos, vieram os problemas de manutenção, a dificuldade de conseguir peças importadas e o abandono progressivo dos equipamentos.

No final da década de 1960, os ônibus elétricos desapareceram das ruas de Salvador. E pronto. Uma experiência pioneira virou lembrança, enquanto os ônibus a diesel tomavam conta da cidade, acompanhados de fumaça, barulho e todos os inconvenientes que conhecemos.

O mais curioso é que, quase sete décadas depois, estamos novamente discutindo a importância do transporte elétrico. Agora com baterias, tecnologia digital, preocupação ambiental e discursos sobre sustentabilidade.

Tudo muito moderno. Tudo muito bonito. Tudo muito parecido, nas intenções, com o que se tentou fazer nos anos 1950. Evidentemente, a tecnologia mudou. Os desafios também.

Mas a experiência dos anos 1950 revela uma cidade que, mesmo com todas as limitações da época, teve coragem de experimentar o novo.

Uma Salvador ainda provinciana colocou ônibus elétricos nas ruas quando esse futuro parecia distante para quase todo mundo.

Os veículos desapareceram, mas a ideia permaneceu. E hoje retorna com baterias melhores, mais eficiência e uma consciência ambiental que naquela época mal começava a existir.

Talvez seja essa a melhor lembrança deixada pelos ônibus de Hélio Machado: Salvador já mostrou que sabe chegar cedo ao futuro.

Quase sete décadas depois, a cidade tem a oportunidade de retomar aquele espírito pioneiro. O fio agora é outro. Mas a energia para seguir em frente continua a mesma.

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