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Raymundo Paraná é homenageado pelo Cremeb por contribuição à Medicina

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O médico e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Raymundo Paraná Ferreira Filho recebeu, na sexta-feira (16), o Diploma Honorífico de Mérito Associativo do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb). A cerimônia foi realizada na sede da Academia de Medicina da Bahia (ABM). A homenagem reconhece sua contribuição para a valorização da classe médica, a união entre profissionais e a defesa dos princípios éticos da profissão.

Durante o discurso, Paraná destacou a importância da ética, da ciência e do humanismo na prática médica. Também criticou a disseminação de informações falsas sobre saúde, especialmente durante a pandemia de Covid-19, e defendeu a separação entre a Medicina baseada em evidências científicas e os interesses comerciais que podem prejudicar os pacientes.

O professor relacionou seu compromisso com a saúde pública a experiências vividas desde a adolescência. Em 1975, aos 15 anos, acompanhou a campanha de vacinação contra a meningite em Salvador, marcada por filas extensas e estrutura precária. Anos depois, durante a formação na UFBA, teve contato com a pobreza e a falta de assistência adequada à população, experiências que fortaleceram sua defesa de um sistema de saúde mais justo.

Formado em 1983, Paraná também relembrou episódios de enfrentamento ao autoritarismo e à discriminação. Após retornar ao Brasil, em 1990, depois de dois anos de formação na França, acompanhou a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS). Professor da UFBA desde 1992, também ressaltou a necessidade de democratizar o conhecimento científico.

O diploma foi assinado pelo presidente do conselho, Antônio Morais de Azevedo Júnior, e pelo secretário-geral, José Carlos Duarte Ribeiro.

Leia abaixo o discurso de Raymundo Paraná na íntegra:

Meu caro Dr. Antônio Azevedo,

Presidente do CRM,

Em seu nome, levo a minha saudação democrata a todos os presentes.

A vida tem sido generosa em homenagens para mim, mas, de todas elas, essa é a que mais me sensibilizou. Mérito associativo, defesa e união da classe.

Isso porque veio dos meus pares, da casa da ética e das boas práticas — CRM. Será entregue na casa da ciência — ABM.

Essa história aqui começou faz tempo. Na verdade, antes mesmo do meu ingresso na universidade.

1975: Aos 15 anos, governo militar autoritário no Brasil; epidemia de meningite escondida da população. Depois de muitas mortes, resolveram enfrentá-la sem estrutura. Pediram ajuda à França e à Fundação Mérieux.

Lembro que ficamos em fila sob o sol por mais de duas horas no Campo Grande para sermos vacinados no coreto da praça, com vacina de pistola, semelhante à vacinação do gado para febre aftosa.

Ali entendi que era necessário lutar pelo respeito ao ser humano.

1977: Ingressei na UFBA e passei a frequentar o Hospital das Clínicas. Furei a minha bolha de classe média ao ver de perto a miséria que era o Brasil. Ali entendi: desigualdade é doença social.

1979: Bolsista de Iniciação Científica, acompanhei projeto na zona rural de Castro Alves (BA). A miséria escancara ao coletar fezes de crianças famintas e perceber que continham bagos de jaca verde.

Impossível ser insensível ao sofrimento do ser humano.

1982: Internato no Hupes-UFBA. Ambulatório com pacientes cujos cartões de atendimento continham um carimbo vermelho de “indigente”.

Revoltava-me ver aquela forma cruel como o Estado tratava o cidadão que não tinha previdência social — 70% da população. Não há forma mais cruel de desqualificação e humilhação do ser humano por um Estado que não era provedor.

Precisamos lutar por um modelo justo de saúde pública.

1983: Formatura. Na condição de orador da turma, tínhamos um presidente militar no seu quinto ano de mandato que disse em cadeia nacional que “preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo”.

Então falei no meu discurso: “Espero que nós todos tenhamos escolhido a profissão certa, pois não temos mandato. Será para a vida toda. Imagino aqui a frustração desse presidente que sonhou ser gerente de estábulo e acabou, tristemente, como presidente da República”.

No dia seguinte, fui convocado para ir à Aeronáutica. O jovem Paraná passou por um grande estresse. Já havia a Lei da Anistia e a ditadura ruía. Ali pensei: ditadura nunca mais.

1984: Residência médica em São Paulo. Final da ditadura. Resolvi renovar a minha carteira de identidade. Vi um agente público humilhar uma senhora nordestina, chamando-a de cabeçuda, na frente dos seus dois filhos. Não hesitei em caminhar alguns metros para denunciá-lo numa delegacia de polícia e vê-lo ser conduzido até o delegado. Racismo e xenofobia ainda não eram crimes perante a lei, mas agressão, sim.

Ali percebi: qualquer discriminação é intolerável — racial, social, sexual, origem etc.

1990: Volta ao Brasil depois de dois anos de formação na França. Conquista e estruturação do SUS. Estávamos certos. Todos os indicadores sociais e de saúde melhoraram. Resumo tudo nesse indicador, mas informo que a melhora foi contundente em todos os demais.

Mortalidade infantil em 1983: 149 por mil crianças nascidas.

Mortalidade infantil em 2025: 12 por mil crianças nascidas.

Viva o SUS!

1999: Já professor da UFBA desde 1992.

Multiplicar e democratizar conhecimento.

2021: Plena pandemia de Covid. Falsas informações acerca do uso de ivermectina e cloroquina. Movimento hediondo antivacina cresce no país e atinge o PNI.

Fake news adoece. O antivacina é criminoso.

Atual: Ao ver personagens digitais na internet e redes sociais, figuras repugnantes, lucrando com a desinformação e adoecendo pessoas para lucrar.

Para ser médico, precisa incorporar o trinômio “ética, ciência e humanismo”.

Quem não tem esses valores pode até ter CRM, mas não pode ser chamado de médico.

É preciso separar a Medicina verdadeira do medbusiness.

Por fim, quero agradecer aos meus pares e a essa casa pela generosidade da minha escolha para essa homenagem.

Agradecer aos que ajudei a formar, aqui presentes como representantes de todos: Marisa, Liana, Hélio e Antônio Ricardo.

Agradecer à minha família, através de Victoria e Marla, aqui presentes.

Muito obrigado.

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