Conheça os últimos seresteiros de Salvador que ainda resistem a uma febre do passado
Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole na edição de 22 de outubro
Fortalecidas especialmente nas décadas de 1980 e 1990, as serestas de Salvador seguem embalando corações com boleros, choros cantados e canções românticas sobre amor, saudade e paixão. Em cinco pontos tradicionais da cidade, ao som de vozes, violões e teclados, os bailes ganharam novas roupagens a partir dos anos 2000, com ritmos, arranjos e interpretações que renovaram o repertório sem deixar de lado o romantismo.
Entre mesas, bebidas e petiscos, tem casal apaixonado, dançarino experiente, incluindo os de aluguel, e gente que vai mesmo é para aproveitar a música. São as serestas da resistência na capital baiana cidade, onde cada canção pode despertar uma lembrança e cada dança render uma nova história.
Campo de Sedução
Foi no salão que Aurora Carvalho, 78 anos, encontrou um parceiro para a vida. Carioca criada em Salvador, ela frequenta serestas há mais de duas décadas e conheceu Luiz Carlos do Nascimento, 71, no antigo Kantarerê, casa de shows que já não existe mais. Uma dança virou namoro, e lá se vão 22 anos juntos.
Luiz Carlos conta que o primeiro reencontro quase deu errado. Chegou à seresta depois de tomar umas e não conseguiu dançar como queria, mas Aurora lhe deu outra chance. Desde então, os dois percorrem os bailes da cidade, colecionam troféus em competições e exibem um estilo próprio, o “sambolero”, mistura de samba e bolero. Para eles, música boa, dança e o clima de campo de sedução são ingredientes que não podem faltar em uma boa noite de seresta.
Dançarino de aluguel
Solteira aos 71 anos, Dilzete Souza se define como uma dama solitária e paga dançarinos para acompanhá-la nas serestas. Depois de enfrentar uma paralisia, passar um período em cadeira de rodas e conviver com 23 hérnias de disco, ela ficou cerca de 20 anos longe dos salões. Há dois anos, voltou a dançar e não quer mais parar. Até o aniversário mais recente foi comemorado ao som de seresta.
Para Dilzete, dançar é “prazer e força para seguir vivendo”. Um de seus parceiros é Moisés Teófilo, de 51 anos, que descobriu a possibilidade de trabalhar como dançarino ainda enquanto aprendia os passos. Ele empresta a companhia e o gingado a quem, como Dilzete, não quer deixar a música passar em branco. Em Salvador, o Clube Comercial também oferece dançarinos para acompanhar quem chega sem par. Na pista, os caminhos são diferentes, mas o encontro acontece no mesmo compasso.
Dança para riscar salão
Professora de dança há 16 anos e frequentadora do universo da seresta há cerca de 25, Simone Casais também promove bailes no Clube Comercial, no Centro. O espaço recebe gente de várias idades, de crianças a alunos com mais de 90 anos, e mostra que aprender a dançar não tem prazo de validade.
Simone percebe que hoje mais pessoas procuram aulas para aprender os passos da dança de salão do que há dez ou 15 anos. A dança solta continua tendo vez, mas cresce o interesse por giros, condução e movimentos bem-marcados. Entre quem está começando e quem já domina a pista, o salão segue como espaço de convivência e, claro, de exibição de talento.
Trilha do coração dolorido
Paulo Humildes, cantor há 37 anos, mantém seu lugar nas noites dos bailes chiques de Salvador. A reportagem o encontrou em apresentações em diferentes casas, numa rotina puxada, com shows em sequência entre quinta-feira e domingo.
Embora também cante arrocha e música popular brasileira, Paulo tem no bolero o carro-chefe do repertório. Entre suas inspirações estão Roberto Carlos e Julio Iglesias, ao lado de nomes como Nelson Gonçalves, Altemar Dutra e Waldick Soriano, artistas históricos da música romântica que seguem presentes nas serestas e embalam os apaixonados.
Quem faz a seresta acontecer
Manter os bailes de pé também exige paixão. No Centro, Cátia Bahia assumiu o Lugar Comum há cerca de quatro anos, depois de se encantar pela tradição da casa, cuja história começou há aproximadamente 45 anos. A seresta que nasceu em um bar cresceu e virou ponto de encontro de frequentadores fiéis.
Na Liberdade, o Mousa Music dá continuidade a uma história iniciada por seu Mousa e mantida pelo filho, Jairo. Já na Ribeira, a Cabana do Bogary aposta em um diferencial: a seresta durante o dia, aos domingos, à beira-mar. Sócia do espaço ao lado de Paulo Leitão, Lúcia carvalho, 68, participa da manutenção da casa, que tem mais de 40 anos de trajetória.
De quem organiza as festas a quem sobe ao palco, ensina os passos ou volta toda semana para dançar, a seresta se sustenta numa rede de gente que não deixa a tradição esfriar. E é nessa que, enquanto houver música romântica tocando e pista para dançar, sempre vai ter alguém esperando um convite para serestar.
Para conhecer
Mousa Music: Largo do Guarani, 462, Liberdade.
Lugar Comum: Avenida Sete de Setembro, 5, próximo à Igreja do Rosário, no Centro.
Lua de Prata: Rua Professor Souza Brito, em Itapuã.
Cabana do Bogary: Avenida Beira-Mar, 440, na Ribeira.
Clube Comercial: Avenida Sete de Setembro, 710, no Centro.




























































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































