MK conta a história por trás de um decreto de ACM sobre a célebre mansão dos Mariani
Tenho diante de mim a cópia de um decreto de 5 de julho de 1973. Papel amarelado, tinta cansada, carimbo de época. Quem lê de passagem sai com lágrimas nos olhos. É um dos textos mais sensíveis já produzidos pelo Palácio do Governo da Bahia.
O Estado, diz o documento, não suportava mais a ausência de uma escola-parque para crianças excepcionais. Era dever do governo empregar todos os meios a seu alcance. E havia o lugar perfeito: o número 400 da Ladeira da Barra. Dez mil metros quadrados de verde, árvores, sossego, uma vista que Deus desenhou num dia de bom humor. O governador também se preocupava com a cidade. Temia a especulação imobiliária. Temia a concentração insuportável de prédios. Pela primeira vez na história, um governo baiano se levantava contra o concreto na Barra.
Comovente. Só faltou dizer a verdadeira causa. Mas ela estava lá, no artigo primeiro, em maiúsculas: CLARA PEREIRA MARIANI BITTENCOURT. Proprietária do imóvel. Da família de Clemente Mariani.
Quem viveu aquela Bahia entende o resto sem legenda. Em 1973, o Banco da Bahia, dos Mariani, era a noiva mais cobiçada do sistema financeiro. Dois pretendentes rondavam a casa. De um lado, o Bradesco, de Amador Aguiar, com dinheiro paulista e paciência de agiota. Do outro, o Banco Econômico, de Ângelo Calmon de Sá. Baiano, amigo do Palácio, aliado de primeira hora de Antônio Carlos Magalhães.
Para ACM, banco baiano ficava com banqueiro baiano. Clemente Mariani pensou diferente. Fez as contas e vendeu ao Bradesco. E, no meio da disputa, deixou o Econômico tão abalado que o banco de Calmon de Sá cambaleou à beira da falência. Antônio Carlos não esquecia. Antônio Carlos anotava.
O Bradesco estava em São Paulo, fora do alcance. Clemente Mariani estava acima de muita coisa. Mas a casa da família estava ali, na Ladeira da Barra, ao alcance de uma caneta. E caneta, em 1973, ACM tinha de sobra.
Agora, o golpe de mestre. Leiam o artigo segundo. A escola se chamaria Desembargador Pedro Ribeiro. O pai de Clemente Mariani. Homem de família tradicional, magistrado respeitado, patriarca do clã. Isso não é homenagem. É assinatura.
Tomar a casa da família já era castigo. Pendurar na fachada o nome do pai era requinte. O desafeto perdia o imóvel e ainda ficava proibido de reclamar. Como protestar contra uma escola para crianças excepcionais que leva o nome do próprio pai? Seria ingratidão dupla. Com os pobres e com o morto.
Releio os considerandos e confesso que admiro a obra. Não há uma vírgula de raiva. Tudo é virtude, amor às árvores, zelo urbanístico, piedade filial. É a vingança vestida de beneficência. Uma faca enrolada em algodão hospitalar e com dedicatória.
O carlismo tinha isso. Raramente batia de frente quando podia bater de lado. Usava o Diário Oficial como outros usam soco inglês.
Mas a política baiana tem um final feliz para todo mundo, menos para quem acreditou no decreto. Antônio Carlos fez o que sempre fazia depois de mostrar os dentes: sentou-se à mesa. Compôs-se com Amador Aguiar, o dono do Bradesco. Os banqueiros se entenderam, o governador se entendeu com os banqueiros, e o decreto foi anulado.
Convivi muitos anos com Antônio Carlos. Fui seu prefeito, seu aliado e, depois, seu adversário. Aprendi que ele tinha duas canetas. Uma para ferir, outra para fazer as pazes. E as duas assinavam com a mesma letra.
Clemente Mariani ficou com o dinheiro do Bradesco. Os Mariani ficaram com a casa da Barra. ACM ficou com um aliado poderoso em São Paulo. Calmon de Sá ficou com o susto.
E as crianças excepcionais ficaram com o que sempre lhes coube na Bahia: um considerando.





































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































