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Em nova crônica, MK lembra do tempo em que a fraude era movida pelo voto em papel

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Flávio Bolsonaro perdeu e pediu a anulação da eleição. Nada de novo. No Brasil, perdedor que xinga o juiz é tradição mais antiga que o futebol. O que me espanta é o alvo. O rapaz desconfia da urna eletrônica. 

Logo dela, coitada, a coisa mais honesta que já passou por uma seção eleitoral neste país. Desconfiar da urna eletrônica é coisa de quem não conheceu a urna de lona.

Na República Velha, a fraude era artesanal. Voto a bico de pena. O eleitor nem precisava aparecer. O escrivão resolvia tudo com a caneta, e votavam até os defuntos, com uma disciplina cívica que os vivos nunca tiveram.

Depois veio o cabresto. O coronel do interior não pedia voto. Entregava a cédula preenchida, junto com a dentadura e a promessa de emprego na prefeitura. O eleitor votava de olho no patrão. 

E havia a urna de lona, obra-prima da engenharia baiana. Saía da seção numa caminhonete e, no meio da estrada, misteriosamente, engordava. Sertão seco, urna molhada de cédula.

Na apuração, o espetáculo continuava. Mesas de apuradores contando papel na mão, madrugada adentro, café frio e olho grande. Ali morava o mapismo: o voto entrava de um jeito na contagem e saía de outro no mapa. Bastava um zero bem colocado. O fiscal cochilava, e o candidato acordava eleito.

Eu mesmo ganhei a Prefeitura de Salvador em 1985 com 67% dos votos, contados à mão, cédula por cédula. Ninguém pediu recontagem. Também, com aquela diferença, nem o melhor mapista da Bahia dava jeito. 

Teria que inventar eleitor, e o estoque de defuntos já estava esgotado. Tudo isso sem hacker, sem algoritmo, sem código-fonte. Só com caneta, lona e cara de pau.

A urna eletrônica chegou em 1996, se espalhou pelo Brasil em 2000 e acabou com a farra. Por isso é tão odiada. Não por ser insegura. Por ser chata. Não deixa ninguém trabalhar. Em três décadas, ninguém provou uma fraude nela. Já a de lona tinha até sotaque.

Senador, com todo o respeito: se o senhor quer mesmo ver fraude, procure as declarações de Waldir Pires quando candidato a senador pela Bahia. 

A diferença é que, no passado recente, quem perdia na apuração não pedia anulação. Engolia calado. Sabia que, na próxima, era a vez dele.
 

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