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Crônica de MK resgata a história dos camisas-verdes e alerta para o fantasma do fascismo

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Sou do tempo em que ainda se falava dos camisas-verdes em voz baixa. Gente que saudava com o braço erguido e gritava “Anauê!”, como quem chama o garçom de uma revolução. Era o integralismo de Plínio Salgado, nossa versão tropical do fascismo, com sigma no peito e Deus, Pátria e Família na boca. Parecia piada. Não era.

O fascismo nunca chega fantasiado de monstro. Chega de farda limpa, falando em moral, em ordem, em salvar a nação dos corruptos e dos comunistas. Mussolini marchou sobre Roma assim. Hitler subiu pelas urnas assim. E os nossos integralistas, que sonhavam com o mesmo, acabaram em 1938 tentando invadir de madrugada o palácio do presidente. Deu errado. Por pouco.

Pensei que essa história tinha ficado nos livros. Bobagem de velho. Ela voltou, trocou o verde da camisa pelo verde e amarelo da seleção e ganhou grupo de WhatsApp. Voltou com o mesmo cardápio: o inimigo interno, o desprezo pela imprensa, a raiva da ciência, o elogio da tortura, a arma na mão do cidadão de bem. E o velho truque do político que diz odiar a política enquanto se lambuza nela.

Em 2022 o país esteve na beira do precipício, e não é força de expressão. Depois da eleição, a investigação revelou um plano para matar o presidente eleito, o vice e um ministro do Supremo. Deram ao plano o nome de Punhal Verde e Amarelo. Nem a ironia eles pouparam. 

Teve acampamento na porta de quartel pedindo golpe e teve o 8 de janeiro, quando a turba quebrou a Praça dos Três Poderes como quem destrói a casa da própria mãe. Os chefes da trama foram julgados e condenados, coisa inédita num país acostumado a anistiar seus golpistas.

A vitória de Lula não foi só a troca de um governo por outro. Foi o dique que segurou a enchente. Com mais quatro anos daquele projeto, a gente não estaria discutindo eleição. Estaria discutindo se ainda teria eleição. Não sou ingênuo. Democracia não é santa. Mas entre o defeito da democracia e a perfeição do autoritarismo, fico com o defeito. Pelo menos esse se conserta no voto.

Os camisas-verdes também pareciam ridículos até a hora em que deixaram de parecer. O fascismo é assim: morre, mas não se deita. Vive voltando. E a liberdade é casa de taipa, meu caro. Se não refizer todo dia, a chuva leva.

Crônica de MK resgata a história dos camisas-verdes e alerta para o fantasma do fascismo

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